Literatura
Antologia traz doze narrativas de Breno Accioly, o escritor de personagens melancólicos

Antologia traz doze narrativas de Breno Accioly, o escritor de personagens melancólicos

Um homem que não tinha amigos. É o que afirma Lêdo Ivo sobre esse estranho Breno Accioly, o contista que nasceu em Santana do Ipanema, em março de 1921, e morreu 45 anos depois, no Rio de Janeiro, também no mês de março. Na vida breve, publicou cinco volumes de contos que conquistaram reconhecimento instantâneo no meio literário, no Brasil das décadas de 40 e 50 do século XX.

O título de maior impacto foi mesmo o de estreia, João Urso, que mereceu resenhas elogiosas nos suplementos literários.

Pela época em que escreveu, e sendo ele mais um nordestino saído lá do sertão, Breno Accioly pode ser associado à convencional ideia de literatura regional; mas é claro que isso apenas empobrece eventuais interpretações da obra e despreza a dimensão complexa de sua linguagem.

Doze narrativas integram esta antologia organizada pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos: o livro João Urso e Outros Contos Incríveis chega ao público em agosto ­– uma chance de trazer ao centro uma personalidade que sempre andou com mais naturalidade pela margem.

E são marginais seus personagens, descritos num estilo despojado, deliberadamente longe de firulas retóricas; e são homens e mulheres que, não importa o enredo, estão sempre tomados de alguma revolta e demasiada resignação; e fazem da melancolia o ritmo-padrão de suas vidas previsíveis.

O conto é um gênero às vezes subestimado, visto com certa desconfiança até, segundo pensam alguns especialistas em literatura. Besteira. Na verdade, é uma forma sob medida para o ataque rápido, direto, certeiro. Breno Accioly merece releitura permanente.

Clique aqui e leia um trecho do conto OS CATA-VENTOS

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Roda a flor enorme do cata-vento na tarde cinzenta, continua rodando sempre e mesmo de longe pode-se vê-la denteando o crepúsculo porque a sua haste é de aço, haste que se encrava à terra, haste tão alta qual uma torre de igreja.

A dona desta flor é Eudócia. Eudócia também dona dos outros cata-ventos que captam água do subsolo. Água pra irrigação das léguas de canaviais de sua usina. Dir-se-iam também espantalhos para os urubus que empestam o vento. A terra salubre às vezes se torna limosa, encharcada e a cabeleira do corpo imenso se balança com o vento que tange nuvens inclinando canaviais.

Bem no meio das terras irrigadas o bueiro vermelho da usina de Eudócia, maquinaria da Inglaterra, turbinas importadas roncando num incessante trabalho espelham de tão limpas para quem entra no chalé grandão com telhado de amianto.

Eudócia ainda tem Alagoas como horizonte de seus olhos. Nem Recife Eudócia conhece e quem lhe perguntar por que não viaja, não corre o mundo, o silêncio sempre uma esquisitice estudada será a resposta desta milionária, olhos verdes, salgado olhar que desconfia de todos e sempre fita, encara o interlocutor com força de salmoura.

Nenhum cachorro Eudócia cria. A casa-grande de janelas vermelhas, nesta tarde que morre, escuta gemidos do vento, invisíveis mãos amedrontando os canaviais que choram, soluçam como se sentissem medo, pavor dos facões e foices que decepam.

Quando não chove, sempre Eudócia fica apreciando o crepúsculo, absorta à varanda permanece até se fartar da solidão que brame no pranto das canas agitadas. Com passos firmes, Eudócia entra à casa-grande janta e se deita como se tivesse de viajar de madrugada. Raramente joga pôquer e quando empalma as cartas depena a cozinheira, única parceira de seu colorido vício, agregada da casa-grande, antiga ama de leite pra boca de Eudócia quando ainda sem mando, no mundo dos cueiros.

O amor de Eudócia se esconde no seu próprio coração e ninguém até hoje conseguiu saber se o seu peito se magoara, abrira-se em feridas algum dia. Amor conhecido por todos Eudócia nunca o teve e até agora sua beleza tem pertencido ao colchão de sua prolongada virgindade, ao banheiro de água encanada onde Eudócia solta os cabelos…

Não recebe visitas nem toma conhecimento de missa de sétimo dia, tampouco se acovarda ante fiscais do Instituto do Açúcar e do Álcool.

Detesta apadrinhamento, abomina qualquer fuxicaria, politicagem, mas carinho ela tem muito pelos cata-ventos de suas terras, cata-ventos girando sempre, puxando água, furando o subsolo com metros de canos, que afloram golfando água, molhando a terra que não fica escaldada.

Antes, as canas morriam, murchavam nas contra-socas, os rizomas das primeiras plantas também fanavam como se o sol fosse uma praga que trouxesse raquitismo. Mas agora, Eudócia ri-se, galhofa num desprezo de mofa quando pensa nas outras usinas sujeitas à chuva de um clima inimigo, incerto, adverso. Também cai num deboche ao se saber milionária, não precisar depender de ninguém; Eudócia tem no banco depósito de milhões. Esbraveja à cara dos trabalhadores do campo que tentam enganá-la.

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