Literatura
Conheça novas vozes da poesia produzida em Alagoas

Conheça novas vozes da poesia produzida em Alagoas

Nos últimos três anos, uma quantidade expressiva de títulos publicados apresentou novos poetas alagoanos. De 2012 para cá, por meio do Programa de Incentivo à Cultura Literária, esses autores tiveram seus livros editados pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

Trato aqui, neste post, apenas de poesia, mas o projeto contempla praticamente todos os gêneros, com a publicação de romances, contos, crônicas, ensaios etc. A novidade é um avanço significativo, que eleva o estado de Alagoas a outro patamar quando se pensa em mercado editorial.

O quarto edital acaba de fechar inscrições e, em breve, mais uma leva de inéditos chegará ao mercado. Todos os títulos publicados podem ser adquiridos em livrarias e bancas ou na sede da Imprensa Oficial, em Maceió.

Naturalmente, da relação de poetas selecionados nos editais anteriores, alguns têm trajetória consolidada: é o caso de Fernando Fiúza e Sidney Wanderley, por exemplo.

Mas vamos destacar abaixo três autores que ganham visibilidade inédita, justamente pelos editais da Imprensa Oficial: Ubirajara Almeida, Marlon Silva e Débora de Omena.

É autor de Inventário do Silêncio, publicado em novembro de 2012. Na “autobiografia insana”, que aparece na orelha de seu livro, informa-se que o escritor nasceu no Rio de Janeiro, em 1950, passando a morar, anos depois, em Alagoas, terra natal de seus pais. É professor de português. Em seus textos, temas universais da poesia retornam, transfigurados, em versos de arquitetura fixa, num consistente diálogo com a tradição.

Poesia

O poema no papel
Parece um morto
Enterrado
A contragosto.

As palavras nas folhas
Encarceradas
Estão vazias
Não dizem nada.

Ali estáticas
Desamparadas
São como traças
Na página abandonada.

Sob o olhar apaixonado
O triste verso agora é canção,
Transborda de emoção
A poesia no peito libertado.

Labirinto

Do silêncio ao sonho
O limite é a pedra
Arquitetada em pleno
Voo do sono.

Não é pedra que se pese
Nem o corpo se retrata
A distância é medida
Na sua forma abstrata.

Não se prepara um sonho
Sem seduzir a paixão
Já o silêncio se lavra
No canto da solidão.

É preciso tecer o engenho
No desejo da manhã
Saber a arte do fuso
Além de barro e de lã.

É preciso fiar a sorte
Para medir o destino
De cada um é a sina
E de todos: desatino.

É autor de Vil e Tal, publicado em julho do ano passado. Nasceu em Arapiraca, tem graduação em Letras e é professor da rede pública no município de Teotônio Vilela. Vocabulário inusitado, com gírias e regionalismos raros; poemas discursivos ao lado de outros quase ‘concretos’; uso da repetição e jogos sonoros; ironia e metalinguagem: um poeta sem dúvida original.

Lição de coisas

Ninguém sabe de uma pérola
até que se abra a ostra.
Saber de uma pérola é, antes,
saber de um grão de areia.

Ninguém sabe de uma ostra
até que o mar a crie.
Ninguém sabe de um grão de areia
até que o vento o sopre.

Saber de uma pérola é, antes,
saber que uma ostra tem ventre,
um grão de areia é semente
e nada engana mais que a certeza.

Crescer pérola, ser pérola, é, antes,
acreditar no seu valor,
é saber-se único grão de areia,
no milheiro, a fecundar a ostra.

Teoremando

Pra quando se é
Se não quando é
Por não é se.

Pra se quando é
Se é o seja é, se
É se de não já se.

Quando pra é
Se pra é quando
Pra se quando é

É se quando pra
Se pra quando é
É pra quando se

É autora de Não Conte Comigo, obra selecionada no último edital da Imprensa Oficial e publicada em março deste ano. A poeta nasceu em Maceió, tem apenas 18 anos e estreia na literatura com um livro que revela um talento evidente. É uma ótima notícia que venha de uma jovem escritos de tamanha qualidade, marcados por um tom despretensioso, mas sem descuido com a linguagem. Pelo título de estreia, temos uma novidade que vale a pena e, ao mesmo tempo, um nome mais que promissor.

DOBRO

Escrever é uma masturbação
A palavra chega e lateja
Deixo claro
bem claro
Não interrompo tesão
para reclamar de luz acesa

SOMBRA

Nesta rua tem um poste
que se confunde com a lua
E todos os dias esta luz
meus cílios puxa
não há nada
de especial
que se
conclua

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Um Comentário

  1. Caro Célio: Estive afastado durante quarenta anos e perdi contato com amiga, filha de Carlos Moliterno, chamada Tânia. Sei que este meu pedido a você é atípico porque nada tem a ver com literatura os com os escritos dele. Entretanto permita-me pedir-lhe informação de como poderei proceder para localizar essa pessoa muito querida, a Tânia, da qual não tenho notícias há tanto tempo. Muito obrigado antecipadamente. João Luiz

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