Literatura
Retrato do gênio quando jovem

Retrato do gênio quando jovem

Quando era um jovem, no começo de sua trajetória de escritor, durante breve espaço de tempo, Graciliano Ramos trocou de nome. Ele foi R.O e foi também J. Calixto. Com a assinatura de R.O, escreve para o jornal Paraíba do Sul (RJ); já o senhor Calixto assume a autoria de textos publicados em O Índio (AL).

As primeiras crônicas publicadas no jornal do Rio de Janeiro são de 1915. Revelam um autor de apenas 23 anos, com impressionante domínio de sua matéria-prima: está claro, já a partir daquelas linhas iniciais, que o alagoano de Quebrangulo surge praticamente um autor pronto.

É claro que o reconhecimento como um mestre na literatura virá com os quatro romances publicados ao longo da década de 1930  – Caetés, São Bernardo, Angústia e Vidas Secas -, mas todo vigor que vamos encontrar nessas obras é o mesmo do cronista iniciante.

A produção para a imprensa, que expõe esse primeiro Graciliano nas décadas iniciais do século XX, mostra também o ecletismo do autor. Ele escreve sobre tudo, o que nos dá informações valiosas sobre a vida num Brasil que se agitava em busca de novas identidades, um Brasil sacudido por novidades estéticas e transformações políticas.

Personagens do mundo intelectual são alvejados pela ironia implacável do escritor, que desde cedo mostra antipatia por patotas e jargões de qualquer segmento. Da mesma forma, como homem de imprensa, o escritor destila quase sempre o mais puro desprezo aos donos do poder e à política de modo geral.

É dessa época, década de 20 do século passado, o desconcertante texto em que Graciliano menospreza a prática do futebol no país. Segundo ele, muito mais atento à aventura da linguagem do que à ciência da profecia, o esporte britânico não emplacaria por essas bandas. Ao expor as razões que sustentam sua tese, o autor ataca nossas deficiências e aponta um esporte nativo como alternativa ideal ao jogo de bola: a rasteira.

Quanto ao espírito e à carcaça, escreve Graciliano sobre o tipo brasileiro: “Fisicamente falando, somos uma verdadeira miséria. Moles, bambos, murchos, tristes – uma lástima! Pálpebras caídas, beiços caídos, braços caídos, um caimento generalizado que faz de nós o ser desengonçado, bisonho, indolente, com ar de quem repete, desenxabido e encolhido, a frase pulha que se tornou popular: ‘Me deixa’…”

Com a mesma pegada, nosso grande escritor dá a receita sobre o tipo de esporte mais adequado ao homem brasileiro: “Reabilitem os esportes regionais, que aí estão abandonados: o porrete, o cachação, a queda de braço, a corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar galinhas, a pega de bois, o salto, a cavalhada, e, melhor que tudo, o camba-pé, a rasteira. A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência”.

A Crônica sobre o futebol e outros esportes nacionais foi publicada em 1921, no jornal O Índio, com o pseudônimo J. Calixto. Nessa época, Graciliano voltara a residir em Palmeira dos Índios, depois de alguns anos no Rio de Janeiro.

Os textos aqui comentados estão reunidos em Linhas Tortas, livro publicado pela primeira vez em 1962. Outro conjunto de crônicas do autor recebeu o título de Viventes das Alagoas, publicado em 1961. São duas obras que servem para combater a imagem-clichê do escritor – sempre lembrado como o retratista da seca e da miséria nordestinas –, clichê reiterado nas escolas e na imprensa.

Não é exagero considerar que, no caso de Graciliano, a linguagem de gênio já aparece plenamente aos vinte e poucos anos de vida do autor. Tanto quanto os romances e contos, esses pequenos artigos merecem leitura urgente, hoje e sempre.

Para muitos o maior escritor brasileiro, o alagoano Graciliano Ramos nasceu há 123 anos, em 27 de outubro de 1892. Este texto é uma simples homenagem ao mestre, autor de obras-primas absolutas como o já citado São Bernardo e Memórias do Cárcere.

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