Bienal 2015
O livro e as palavras escritas no tempo

O livro e as palavras escritas no tempo

Nos primórdios, como sabemos, a palavra escrita apareceu na pedra, em peças de barro, em folhas de plantas, em tábuas de madeira, em papiros, em pergaminho. Aqueles tempos remotos (alguns milênios antes de nós) viram surgir sucessivos experimentos que, séculos depois, seriam aprimorados até encontrar a forma que parecia ideal, imbatível, definitiva: nascia o livro.

São pelo menos seis mil anos de história. Com uma trajetória dessas, que se confunde com a própria saga das civilizações, o livro conquistou prestígio único em todas as sociedades e regimes que o mundo já conheceu.

Com a força de textos grandiosos, livro já foi sinônimo de perigo, heresia, blasfêmia, imoralidade, subversão… Por causa de páginas escritas, tivemos perseguições, prisões, desterros e assassinatos. Não houve império ou governo autoritário que não tenha desferido ataques de ódio ao livro.

Tudo isso passou. A propagação de ideias por meio da palavra escrita, impressa no papel, ganhou velocidade e dimensões desmesuráveis. Deu tão certo que a invenção milenar se tornou uma dessas indústrias de cifras e números fora do alcance racional.

Aí veio a internet. Aí tudo começou a migrar para as “novas mídias”. Aí o velho livro recebeu a extrema-unção e teve a morte anunciada. Essa onda não para de crescer e de quebrar na praia com violência. Mas, apesar do barulho, a profecia fatalista ainda é, por ora, apenas profecia.

Se os ventos arrasadores ainda poderão realmente banir a tradição secular de imprimir papel escrito, não dá pra saber. Profecia não é com a gente. O que se vê é a resistência de um negócio que não para de avançar – ainda que o hábito da leitura seja algo em decadência mundo afora.

Enquanto, volta e meia, o mundo intelectual debate o fim do livro tal como existe no formato consagrado, feiras, encontros, festas e bienais continuam a espalhar a ideia de certa nobreza que paira sobre esse volume de páginas encadernado. E esses encontros fazem um grande sucesso – o que mostra o vigor aparentemente inquebrantável do livro.

Leitura e pensamento são indissociáveis, fazem parte da mesma operação. O ato de ler amplia decisivamente nosso repertório de referências, informações e abordagens sobre os fatos da vida, e fortalece nossa capacidade interpretativa.

Da ficção aos relatos biográficos, do ensaio à poesia, a aventura do texto é uma experiência incomparável, de múltiplas e permanentes transformações em nosso jeito de entender o outro, o mundo em que estamos, o tempo em que vivemos.

Por que isso tudo agora? Porque temos a boa chance de um encontro de grandes proporções com esse objeto tão antigo quanto os primeiros mitos de que se tem notícia. Falo da VII Bienal do Livro de Alagoas, que ocorre entre 20 e 29 de novembro, no centro de convenções em Maceió.

O evento, promovido pela Universidade Federal de Alagoas, merece atenção especial da esfera pública para que seja cada vez mais forte e abrangente. Ler, escrever, pensar: por aí, dá pra tocar o barco e imaginar alguma salvação.

Compartilhe

Posts Relacionados

Responder

Seu e-mail não vai ser publicado. Required fields are marked *