Bienal 2015
Fábulas alagoanas

Fábulas alagoanas

Texto por Luís Gustavo Melo

Descobrir, explorar, aprender. Criar novos mundos, novas realidades. Como falam recorrentemente estudiosos e acadêmicos – e você amigo leitor certamente também deve saber –, a leitura é fundamental para construção de conhecimentos e para o desenvolvimento intelectual, ético e estético do ser humano. Dizem que “o céu é o limite” – mas não para aqueles que leem. E quando uma criança está dentro desse padrão, aí sim é que a imaginação voa alto.

“Literatura infantil é arte. E como arte deve ser apreciada e corresponder plenamente à intimidade da criança. A criança tem um apetite voraz pelo belo e encontra na literatura infantil o alimento adequado para os anseios da psique infantil. Alimento, esse, que traduz os movimentos interiores e sacia os próprios interesses da criança”, defende a escritora Cecília Meireles.

Afinada com esses princípios, a Imprensa Oficial Graciliano Ramos lança, na VII Bienal do Livro, a mais nova edição da Coleção Coco de Roda, com seis títulos inéditos. A iniciativa vem revelando desde 2011 uma série de novos e talentosos contistas e ilustradores. Os livros dedicados ao público infantil privilegiam enredos que trazem temas ligados à cultura popular, à história e à geografia de Alagoas.

Na tarde do último sábado, 21 de novembro, o estande da Imprensa Oficial promoveu uma verdadeira festa com os pequenos que participaram da contação de história e da contação musical – focadas nos textos de três novos livros lançados na ocasião: A Ilha da Fitinha, de Gianinna Bernardes; Trancinhas de Luzia, de Marivaldo Omena e Daniel e a Zamba do Sertão, de Diana Moura.

Os outros três exemplares dessa nova edição – A Ilha de Laura, de Amanda Prado; A Gata Diana na Terra do Pastoril, de Carol Almeida, e Mateu Errante, Mateu Brincante, de Guilherme de Miranda Ramos – foram lançados no domingo 22. Mais uma vez, o estande ficou lotado, cheio de pais, mães e filhos, famílias inteiras, todos querendo adquirir os livros e conversar com os escritores.

Assim como no sábado, durante a tarde e começo da noite do domingo os ilustradores dos livros da coleção estiveram no local e desenharam para a garotada; por várias horas a agitação tomou conta do estande, para alegria de escritores e leitores.

Diálogo entre gerações

A maioria dos autores selecionados no último edital é formada por alagoanos, mas também há casos de escritores radicados no estado. Os títulos abordam costumes, lembranças, fatos históricos e até lendas do nosso imaginário popular – o livro A Ilha da Fitinha, da gaúcha Gianinna Bernardes, exemplifica este último quesito ao tratar de uma lenda que a autora ouviu de uma aluna nascida no interior de Alagoas.

A autora, que veio para Maceió “de mala e cuia” há quase dez anos, desenvolve um interessante trabalho de bordados, e diz que se descobriu escritora aqui. Ela, que em 2013 publicou pela coleção Coco de Roda o livro A Menina de Barro, fala sobre a ideia que trouxe para o seu novo título e comenta a importância do selo dedicado ao público infantil. “Eu acho fantástica essa iniciativa, essa proposta da Imprensa Oficial de que a temática seja sempre sobre Alagoas, sobre histórias acontecidas, experiências… No meu outro livro, eu contei sobre a história da enchente de 2010 que atingiu pessoas de várias cidades, mas eu foquei mais no Muquém”, explicou.

“Agora a temática foi mais voltada para lendas. A história se passa em Piaçabuçu, e eu tinha trabalhado nessa cidade justamente com bordados. E nessa época, lá em Piaçabuçu, uma menina que participou do curso de bordado, falou dessa lenda da ilha da fitinha, que me marcou muito. Achei muito bonita. Quando surgiu a proposta deste ano [do edital], que era a partir de lendas como uma das temáticas, eu me lembrei dessa história e me inspirei nessa lenda que tinha ouvido e encontrei um enredo”.

Mestrando em Linguagem e Ensino pela Universidade Federal da Paraíba, o jovem escritor alagoano Marivaldo Omena Batista trata da memória em seu livro Trancinhas de Luzia, que promove no enredo o diálogo entre três gerações: avó, mãe e filha.

Com ilustrações de Cristiano Suarez, que assina obras anteriormente lançadas pelo selo Coco de Roda, a história é ambientada em Maceió, com passagens por Palmeira dos Índios, e apresenta o mundo de Luzia, uma menininha que passa as tardes na janela, trançando os cabelos, esperando a mãe chegar do trabalho. O autor, que em 2013 publicou o primeiro livro, A Santa e a Ceia, pela editora Multifoco, tem em Trancinhas de Luzia sua primeira incursão no universo da literatura infantil, e contou que a realização da obra foi um desafio prazeroso.

Já em Daniel e a Zamba do Sertão, o terceiro dos títulos lançados no sábado, a redatora publicitária Diana Moura ambientou sua narrativa na cidade de Maravilha para escrever a aventura do menino Daniel que, após um passeio com o avô pelo município sertanejo, conheceu um bicho estranho e tão grande quanto os animais pré-históricos.

Em sua estreia na literatura infantil, Diana se inspirou em seu irmão Daniel Moura, que segundo ela desde pequeno sempre foi muito curioso. “A curiosidade dele foi algo que me trouxe a ideia do menino Daniel”, conta a autora, que explica ainda que a ideia de ambientar sua história em Maravilha surgiu de uma vontade de prestigiar a cidade que possuí um histórico de muitos achados arqueológicos.

“A ideia veio assim de repente, eu pensei: ‘puxa, por que não?’. Seguindo os critérios do edital, pensei em algo que fosse inédito, que fosse importante para as crianças conhecerem: as megaferas, e tal… É uma coisa que não se comenta, as crianças não sabem que existiram por aqui megaferas, preguiças gigantes, não é? Como assim? E isso tudo está aqui, existe um museu lá em Maravilha e está documentado”, explica a autora que destinou sua atenção ao universo sertanejo.

Diana Moura ressalta por fim a relevância da publicação: “Foi muito bacana escrever essa história e poder publicar pela Coco de Roda. É uma coleção que eu gosto de prestigiar e agora me sinto honrada de fazer parte dela também”.

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