Bienal 2015
Vida e literatura

Vida e literatura

Texto por Fernando Coelho e Luís Gustavo Melo

A literatura é uma experiência de descobertas. Tornada hábito, estimula o despertar de novos sentidos e o repensar do mundo, de si próprio e até do outro. Quem lê amplia o repertório para o diálogo com a vida.

Este amontoado de clichês ganhou outros sentidos ao sustentar a conversa com o escritor Cristóvão Tezza na bienal do livro. A tarde do domingo que engarrafou as ruas do Jaraguá e congestionou o trânsito dos visitantes nos corredores da feira literária foi a mesma que viu a escondida Sala Pitanga receber pouco mais de 30 pessoas para ouvir um dos maiores escritores brasileiros vivos.

O autor do célebre O Filho Eterno (2007) e de O Professor (2014), ambos pela editora Record, emendou numa instigante conversa com a professora e pesquisadora Susana Souto sobre dois temas que lhe parecem bem afeitos: vida e literatura.

Catarinense de Lages, Tezza passou a maior parte da vida em Curitiba. Pelo bem-humorado comentário sobre futebol – “meu time joga daqui a pouco, mas a partida a essa altura do campeonato já não vale muita coisa mesmo” –, o torcedor do Atlético Paranaense revelou o caso de amor com a capital que o acolheu.

Falante, descontraído e levemente irônico. Assim Cristóvão Tezza entrelaçou a prosa numa costura sobre suas origens pessoais à formação e trajetória profissional. Das influências, citou mais do que autores – obras cinematográficas e peças teatrais também estimulam a criação literária.

Por vezes, sarcástico, ele lembrou de sua juventude “riponga”, numa comunidade de atores em Antonina, no litoral do Paraná, época em que escreveu Sopa de Legumes, uma anárquica e corrosiva brincadeira sobre a vida nesse ambiente hippie e alguns de seus personagens.

Pauta obrigatória da conversa, os relatos sobre o processo criativo de títulos com sua assinatura animaram os participantes, que interagiram com o romancista. Trapo (Brasiliense, 1988), que o projetou nacionalmente e, claro, o premiado O Filho Eterno, obra de ficção baseada em sua experiência como pai de uma criança que nasceu com a Síndrome de Down, foram os mais badalados do debate.

Enfim, uma síntese das vivências de uma personalidade que se alimentou do fascínio pelo universo das letras. Tezza é daqueles casos clássicos de quem, ainda muito jovem, já devorava obras de alta densidade literária – de Thomas Mann a Graciliano Ramos. “Só com um nome desses, Alagoas não precisa de mais nada”, comentou sobre o autor de Angústia.

E eis a recompensa de prestigiar um encontro com essa dimensão. O contato direto com escritores a partir do relato de experiências poéticas e mundanas complementa o texto para além das linhas impressas. Vida e literatura de mãos dadas a cada página virada.

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