Bienal 2015
BATE-PAPO DE GERAÇÕES

BATE-PAPO DE GERAÇÕES

Texto por Luís Gustavo Melo

Da geração de artistas da MPB surgida em meados dos anos 1960 aos mais destacados autores do rock nacional da década de 80, a música popular no país abordou questões existenciais e políticas em canções – surpreendentemente – de grande êxito comercial.

Representantes do cenário da geração 80, os gaúchos Thedy Corrêa, cantor e compositor da banda Nenhum de Nós, e Carlos Maltz, ex-baterista fundador dos Engenheiros do Hawaii, vieram à bienal com seus respectivos livros – Noite Ilustrada e O Último Rei do Rock (ambos publicados pela editora Belas Artes) – para um bate-papo sobre música e literatura, que aconteceu no fim da tarde da última terça-feira, no Auditório Massayok, com mediação do cantor e compositor Marcelo Marques.

Nesse sentido, o inescapável tópico a respeito da “ponte” entre a música – no que se refere ao texto na letra das canções – e o fazer literário, abriu a conversa com Maltz destacando que, para a sua geração, essa ligação sempre foi bastante direta e, na opinião dele, indissociável – uma vez que o rock, naquela época, era muito ligado “em ideia, em palavra, em pensamento e em livro”. “A gente não parou de tocar e foi fazer livro, na verdade é tudo uma coisa só. não vejo diferença. É uma continuidade”.

Thedy Corrêa, que já publicou três livros de poesia, falou da estreita ligação que o universo temático do Nenhum de Nós tem com a literatura: “No nosso terceiro disco tem uma música que é um trecho do livro Rumo à Los Angeles, do John Fante; a música se chama As Mulheres que eu Rasguei. No mesmo disco, tem também uma homenagem ao Jorge Luís Borges, um dos maiores escritores da história”.

A conversa com o público seguiu com os músicos escritores rememorando situações pitorescas da relação de identificação dos fãs com as letras das canções; sobre a falta de diálogo e a intolerância que atualmente toma conta das redes sociais; o modo como o mau uso da internet rebaixa a capacidade das pessoas de se expressar intelectualmente, e sobre tecnologias que não superam o secular objeto “livro”: “nos Estados Unidos, aumentou o número de livrarias e diminuiu o número de e-books”, disse Corrêa.

Entre contos e crônicas

Surgida no cenário musical brasileiro como representante de uma geração imediatamente posterior a da turma da década de 1980, há mais de 20 anos, a cantora Fernanda Takai integra junto com o marido, John Ulhoa, o núcleo da banda mineira Pato Fu.

Dividindo suas atividades no grupo que formou ainda na adolescência – antes mesmo de cursar faculdade, segundo ela – com uma carreira solo paralela, a artista também possui uma trajetória muito bem construída no universo das letras.

No encontro mediato pela jornalista Fernanda Lins, no Teatro Gustavo Leite, a cantora amapaense – radicada desde os nove anos em Belo Horizonte – falou sobre sua relação com a escrita, que se deu profissionalmente a partir de suas primeiras colaborações em revistas e jornais, sendo este último veículo, a plataforma na qual ela se expressa como cronista.

E foi justamente a partir de um apanhado de vários de seus contos e crônicas, que Fernanda lançou seus dois primeiros livros: Nunca Subestime uma Mulherzinha (2007) e A Mulher que Não Queria Acreditar, publicado em 2011. Seu terceiro e mais recente lançamento é um livro infantil intitulado A Gueixa e o Panda-Vermelho, ilustrado pela artista gráfica Thereza Rowe. Todos editados pela Panda Books.

Simpática, bem-humorada e com aquele jeitinho de eterna adolescente, Fernanda disse que escolheu a crônica por achar que o gênero possui boa mobilidade. Além disso, ela acredita ser esse o veículo perfeito para gerar interesse nas pessoas para a leitura e, que mais do que com o conteúdo de suas letras, é na literatura que o público a reconhece com mais clareza. “Quem lê meus textos conhece mais da minha personalidade do que quem me escuta”.

Indagada sobre a importância da leitura num país onde se diz recorrentemente que há poucos leitores, Fernanda aponta uma perspectiva positiva. “Eu vejo que feiras de livros e bienais como esta tem tido cada vez mais êxito. Eu sei porque tenho viajado bastante e a participação das pessoas de cada cidade é cada vez maior. Eu acho que essa proximidade que se faz de trazer autores pra conversar, numa programação que não envolva só a venda do livro, mas a vivência do livro, da contação de história… de poder abrir um diálogo com alguém que você tenha curiosidade, isso é muito bom”, pontuou a artista.

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