Bienal 2015
O cronista da canção

O cronista da canção

Texto por Luís Gustavo Melo

Ninguém pode difamar o maranhense José Ribamar Coelho Santos, o artista que ficou nacionalmente conhecido como Zeca Baleiro. Em pouco mais de duas décadas de carreira, o músico conseguiu construir uma trajetória digna, cujo caminho denota uma coerência a toda prova.

Ao misturar em seu caldeirão uma miríade de referências que vão desde elementos de ritmos tradicionais brasileiros como o baião, o samba e o pagode, a idiomas musicais estrangeiros como o rock e a música eletrônica, e temperar tudo isso com achados poéticos – à primeira vista, estranhíssimos –, o compositor alcançou sucesso popular, sem abdicar de suas idiossincrasias estilísticas.

Ex-colunista da revista Isto É, desde 2010 Zeca apresenta ao público sua verve literária em títulos como Bala na Agulha: Reflexões de Boteco, Pastéis de Memória e Outras Frituras, Vida é um Souvenir Made in Hong Kong e A Rede Idiota e Outros Textos, livro publicado no ano passado pela editora Reformatório, e que compila algumas de suas crônicas escritas para o tradicional semanário no qual colaborou até meados de 2013.

No encontro com o músico promovido pela bienal, no Teatro Gustavo Leite, o auditório estava completamente ocupado. Por volta das três da tarde, a fila que se formava para ver Zeca Baleiro era impressionante!

Após breve apresentação do cantor e compositor Wado, amigo e parceiro musical de Zeca, o artista maranhense subiu ao palco saudou a plateia e falou: “Vamos bater um papo sem formalidade, até porque com formalidade eu não conseguiria”. Como os dois são velhos conhecidos, o tom da conversa realmente não poderia ser de outra forma.

O bate-papo começou com Zeca Baleiro falando que na adolescência, antes mesmo de se interessar pelo violão, arriscava alguns contos e poemas. Aos 14 anos, porém, a música tomou conta como uma forma de expressão mais sedutora.

“Eu me tornei compositor ali, mas sempre continuei escrevendo… Porque a própria canção é uma obra, em parte, literária. Hoje isso é uma coisa que está se perdendo, mas no auge da canção mais popular dos anos 1950, 40, 30, a canção era poesia. As letras de Noel Rosa são poemas; as letras do Humberto Teixeira, as canções do [Luiz] Gonzaga… Tudo ali tem um engenho poético, não deixa de ser literatura – apesar de popular, como o cordel”.

Num certo ponto da conversa, Wado pergunta qual o tamanho da literatura na arte de Zeca, e ele responde com honestidade que tem tanto respeito pela literatura que sente escrúpulo em dizer que é escritor. “Eu escrevo, mas escritor de ofício é o João Ubaldo Ribeiro, Luís Fernando Verissimo, Machado de Assis, Lima Barreto, o alagoano Jorge de Lima”.

Entre alguns de seus autores preferidos, o cantor citou o jornalista e escritor João Antônio (1937-1996) e o maranhense Ferreira Gullar. “Ferreira é um dos maiores poetas que eu já li, e eu tenho a felicidade de ser conterrâneo dele e, ainda, xará. Porque nós temos o mesmo nome de um santo que é muito popular lá no Maranhão: José de Ribamar. Ele é José Ribamar Ferreira – o ‘Gullar’, é tirado de uma tia lá, e virou pseudônimo”.

O compositor lembrou então de um encontro com o poeta Ferreira Gullar: “Recentemente participei com ele de um programa de TV do Tony Bellotto, no canal Futura, o Afinando a Língua, e lá ele junta um cara da música e outro da poesia. Aí eu fiz esse com o Ferreira, e eu já o conhecia, sempre fui muito simpático com ele, mas é engraçado, porque ele é um cara muito mal-humorado. Embora, por trás daquela máscara, há um cara muito delicado, também”.

Após a rodada de perguntas da plateia, ao final do encontro, a pedido de uma fã, Zeca Baleiro cantou a capella o tema Chão de Giz, de Zé Ramalho, com coro da audiência e tudo o mais.

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