Bienal 2015
As marcas de Delmiro Gouveia na educação

As marcas de Delmiro Gouveia na educação

Texto por Luís Gustavo Melo

Polêmico e controverso, mas, acima de tudo, um homem de visão e de notável espírito progressista, o cearense Delmiro Augusto da Cruz Gouveia (1863-1917) é, por vários motivos, um personagem fascinante, que gera constante interesse e inspira estudos e narrativas as mais diversas no universo da historiografia brasileira.

Pesquisador que há mais de 15 anos se debruça sobre a trajetória de vida e de realizações do famoso industrial nordestino, em seu livroDelmiro Gouveia e a Educação na Pedra – cuja terceira edição pelo selo da Imprensa Oficial Graciliano Ramos foi lançada nesta quinta-feira, na bienal – o professor Edvaldo Francisco do Nascimento encontrou uma forma de contar a história do personagem sob um foco inédito, a partir de seus estudos na linha de História da Educação.

“Sempre desejei escrever sobre algum aspecto da vida do Delmiro, mas não tinha muito claro o quê. Porque existe uma vasta produção sobre diversos aspectos dele, existem inúmeros estudos e biografias. Mas um olhar que ainda não tinha sido desenvolvido em forma de livro foi sob a perspectiva educacional”, explica o autor.

Nascimento construiu uma pesquisa sobre os processos educacionais que foram desenvolvidos no sertão, a partir da chegada de Delmiro Gouveia, no início do século 20, para entender como o sertanejo que habitava aquela região foi incorporado à filosofia de escolarização, aos projetos de ensino e aprendizagem – escolares e não escolares.

A professora Luitgarde Oliveira Cavalcanti, que assinou o prefácio da terceira edição, ao lado do autor durante o lançamento no estande da Imprensa Oficial Graciliano Ramos na Bienal do Livro de Alagoas

Para mergulhar nessa história, o autor vasculhou os arquivos da Fundação Joaquim Nabuco, do Arquivo Público de Alagoas, do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, do Museu Regional Delmiro Gouveia e realizou entrevistas com antigos operários da Fábrica da Pedra, com pessoas cujos pais conviveram com Delmiro e com a família do industrial que atualmente vive no Rio de Janeiro, e concedeu livre acesso a um valioso acervo iconográfico e documental.

Publicado originalmente em 2013, pela Viva Editora, a obra obteve boa receptividade no mundo acadêmico, o que resultou numa segunda publicação pela editora do Senado Federal, já no ano seguinte.

Nesta sua terceira edição, o título traz um capítulo inédito, no qual o autor procurou avançar na sua investigação sobre o projeto “civilizatório” forjado por Delmiro Gouveia, pela via da educação, na vila operária da Pedra, a partir do momento em que seus herdeiros transferiram a companhia para as mãos de um grupo pernambucano.

Para além da figura histórica do visionário industrial brasileiro que levou para o sertão alagoano a modernidade em curso nos grandes centros do país, no início século 20, é em grande medida na complexidade humana do personagem que o professor Edvaldo Nascimento aponta a razão pela qual Delmiro Gouveia ainda exerce fascínio:

“Para alguns, ele é mitificado como um herói, como o ‘Mauá do Sertão’ nordestino, como o empreendedor do século. Por outro lado, há também os que têm outra concepção dele, e o veem como o coronel, como o patrão truculento, como um homem violento, como um trapaceiro… Então, a depender do olhar, você tem essas perspectivas de amá-lo e odiá-lo. E Delmiro é um personagem bastante rico justamente por essas questões. Ele foi um homem polêmico, que ainda hoje estamos nós cá, tentando compreendê-lo”, pontua o autor.

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