Bienal 2015
Tem jornalismo na história em quadrinhos

Tem jornalismo na história em quadrinhos

Texto por Luís Gustavo Melo

Embora já não seja mais uma novidade, o conceito de quadrinhos como veículo para produzir reportagens que mergulhem fundo no assunto, com o mesmo rigor de um material investigativo, denso e comprometido com o factual, ainda é considerado incomum no Brasil.

Prova disso é que no lançamento nacional do livro Palestina (Conrad, 2000), do norte-americano Joe Saco, os editores decidiram publicar a obra com um prefácio de cinco páginas, assinado pelo jornalista José Arbex Jr., explicando as possibilidades de uma “reportagem em quadrinhos”.

Lá fora, muitos apontam o também norte-americano Art Spiegelman como um nome de relevo nesse segmento, por ser o único autor de quadrinhos a ganhar o prêmio Pullitzer, pelo título Maus – A História de um Sobrevivente, livro que retrata descreve como seus pais sobreviveram ao Holocausto.

Foi justamente para discutir essa vertente do jornalismo que a Bienal do Livro – que se encerrou no último domingo (29) – abriu espaço para um bate-papo sobre o assunto, com o roteirista de cinema e autor de quadrinhos Pablo Casado e o jornalista cearense, e também quadrinista, Talles Rodrigues. O encontro atraiu um público pequeno, mas bastante participativo.

Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Ceará, Talles Rodrigues trouxe para o evento o seu livro-reportagem em formato HQ, Cortabundas – O Maníaco de José Walter, publicado pela Editora Draco.

Realizado com o mesmo cuidado na apuração de um trabalho convencional de jornalismo investigativo, a obra reconstitui o caso de um maníaco sexual que ficou conhecido pela crônica policial como “corta-bundas”, que, entre 1985 e 1987, aterrorizou os moradores do bairro Prefeito José Walter, na periferia de Fortaleza, invadindo casas na calada da noite, para cortar as nádegas das moças da vizinhança, com lâmina de barbear.

Segundo relatos da época, o bairro inteiro entrou em estado de alerta. Pais de família amanheciam na porta de casa com cassetetes. Os moradores faziam rodízio na ronda, para tentar capturar o pervertido que não permitia que nenhuma mocinha saísse na rua desacompanhada ou ficasse em casa sozinha. Até os roubos e furtos diminuíram na região, visto que os ladrões tinham medo de serem confundidos com o corta-bundas.

Durante o papo com o escritor Pablo Casado – parceiro de Talles num projeto de série em quadrinhos, intitulado Mayara & Anabelle – o jornalista contou que, ao longo do período de mais de três anos em que a obra levou para ser concluída, sua rotina era dividida entre pesquisar documentos e jornais antigos, entrevistar pessoas, tirar fotos dos lugares, fazer o esboço das páginas e finalizá-las – tudo sozinho.

Entre os vários entrevistados, Talles Rodrigues conta que pelo menos uma das vítimas do maníaco preferiu não se identificar. “Eu consegui falar com duas meninas que foram vítimas dele – meninas, porque na época em que foram atacadas tinham 10, 11 anos. Uma delas estava de boa, mas a outra não quis ser identificada. Para preservar a identidade dela e, ao mesmo tempo, manter certa verossimilhança, eu a desenhei como ela era, mas dei um jeito de não mostrar o rosto”, disse o autor.

Casado chama atenção para o detalhe de a narrativa apresentar um certo alívio cômico, com a presença do próprio autor como personagem que surge buscando investigar o que aconteceu na época daquele caso bizarro. Em relação a isso, no maior estilo do jornalismo gonzo, o autor explica:

“Eu estou ali como personagem que quer descobrir esses fatos. E às vezes você se mete em muita ‘furada’ pra fazer entrevista, coletar dados e ficar em repartição pública, perguntado pelas coisas e enfrentando filas enormes. Então, acaba que essas coisas passam a ser até engraçadas no papel, e tento sempre respeitar o clima do que está acontecendo”.

Com a publicação do livro, o jornalista constatou que o tema e o próprio formato jornalístico da obra conseguiram atrair um público diverso. “Muita gente que não tem o costume de ler quadrinhos quis ler o livro pela história da cidade, por ser morador do bairro José Walter. Muita gente mais velha que viveu naquela época e leu, veio falar comigo depois. Então, foi muito bom o livro atingir pessoas para além do público-padrão consumidor de quadrinhos. E quem já consome, se interessou por essa parte jornalística da obra, que foge um pouco do que elas estão habituadas a ler”.

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