Literatura
Tempo sem ponteiros

Tempo sem ponteiros

Há coisas que começam antes de começar e terminam antes de terminar. Dizem, por exemplo, que o século 20 começou depois do começo propriamente dito, ou seja, não em primeiro de janeiro de 1901. O século 20, na verdade, começou mesmo com a revolução russa e a primeira guerra mundial, quando já estávamos nas primeiras décadas do novo século – ao menos de acordo com o calendário gregoriano.

Do mesmo modo, o século 19 acabou bem antes do último dia do ano de 1900. Nesse caso, a data seria apenas uma dessas convenções universalmente consensuais entre nós, seres desavisados sobre eventuais fenômenos que aceleram e atrasam os ponteiros do tempo, da história, da vida.

Falta explicar ainda por que o século 19 acabou antes do fim. Essa é fácil: resumindo, duas outras revoluções – a francesa e a industrial – precipitaram o futuro em décadas, antecipando para uma época, mais uma vez, um modo de vida que seria regra dezenas de anos depois.

Talvez movido por essa crença, ainda que inconscientemente, o jornalista Zuenir Ventura não deixou por menos ao decretar, num pretensioso título, que, segundo suas insólitas convicções, 1968 é um ano que não terminou. Lançado originalmente em 1988, temos, portanto, um ano que durou, pelo menos, duas décadas. Ou mais. Afinal, a obra é celebrada até hoje, com reedições sucessivas. Não sei se o jornalista ainda espera pela virada de 68 para 69.

Mas voltemos a dimensões mais amplas. Se, por alguma razão, você nunca soube, vivemos num século que também ignorou o intervalo de 12 meses e 365 dias para nascer. Este século 21 teria desprezado a transposição de 2000 – e somente se deu por inaugurado a partir de 11 de setembro de 2001, a data dos atentados que destruíram as chamadas torres gêmeas, no coração do império.

Chuto uma hipótese para interpretar essa ideia que seduz tantos pensadores: tal categoria de divagações tem um lastro de cientificismo, que vai da História à Sociologia, passando, claro, por um paradigma profético, típico da seita que conhecemos pelo nome de Economia.

Minha hipótese vem das ruas, da aventura da linguagem do homem comum, aquele para quem a semana passou rápido, os dias se arrastam, o tempo parece que parou na cidadezinha do interior – e o ano, você já sabe, passou voando. Você também já ouviu dizer, de algum convicto interlocutor, que a hora é a gente quem faz; que o futuro é hoje; que não há tempo a desperdiçar; que o tempo, simplesmente, não existe.

Recorro a um livro de 1921, Domingo dos Séculos, de um autor hoje esquecido, Rubens Borba de Moraes. Espécie de ensaio com lances de humor e ironia, o autor enfrenta questões originais – que passam longe das previsíveis estripulias novidadeiras, então dominantes na paulistana e incensada semana de 22. Escreve ele: “Ensinam nas escolas que, em cada século, há cem anos. É um absurdo! A ideia do século centenário só pode ser verdadeira para meninos que estudam aritmética, para facilitar os cálculos”. Para o autor, sãos justamente os grandes eventos, de alcance global e consequências avassaladoras, que enterram o tempo presente e impõem uma nova era, à revelia do insípido calendário.

Sim, é vasta a literatura a respeito desse enigma indecifrável, que fascina e atormenta o homem desde sempre. Em 2008, no último livro de poemas publicado em vida, Réquiem, um título nada casual, escreve o mestre Lêdo Ivo: “Na Barra de São Miguel, diante do mar,/ só agora aprendi:/ o dia mais longo do homem/ dura menos que um relâmpago”.

Assim, não sei se o novo ano está para raiar; se já chegou sem aviso prévio; ou se já se foi, como um sopro, no ritmo de uma visita cruel do tempo.

Mas, se para você, tudo isso é irrelevante, tanto faz. A vida é assim mesmo: não importam desejos e certezas; a qualquer tempo, nosso destino estará sempre à espera ansiosa de uma inescapável contagem regressiva.

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