Literatura
Um mestre multidisciplinar

Um mestre multidisciplinar

Dirceu Lindoso é um patrimônio intelectual de Alagoas, um estudioso em tempo integral, que dedicou toda a vida a investigar as origens e a formação da sociedade em que vivemos. Suas obras se tornaram referência obrigatória para pesquisadores de todo o país. Prova disso são as constantes visitas que Dirceu recebe em seu apartamento, no bairro de Pajuçara, em Maceió: são estudantes de diversas áreas, de universidades de vários pontos do Brasil, que vêm ao encontro deste que é provavelmente o último grande pensador vivo por aqui.

E foi em seu apartamento, durante uma tarde inteira, que o escritor multidisciplinar conversou comigo e com o jornalista Fernando Coelho. Fomos tratar do romance Os Filhos de Ana Rosário, que será editado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Selecionado por meio de edital público, o título, que é o segundo romance do autor, será lançado em abril próximo.

Mas nosso encontro com Dirceu, como nós prevíamos, rendeu muito mais. Ele nos falou de sua trajetória acadêmica, de escolhas intelectuais, das obras que publicou e das muitas que estão inéditas. Aos 83 anos, esse filho de Maragogi se mantém ativo e não cansa de produzir. O homem escreve sem parar – são volumes de ensaios sobre variados temas, prosa de ficção e poemas.

Sim, estamos diante, também, de um poeta original, ainda desconhecido do público. Experimentamos o privilégio de ter acesso a esse verdadeiro baú de preciosidades, que precisa urgentemente chegar aos leitores. Enquanto líamos alguns de seus textos e poemas, Dirceu ia fazendo comentários, sempre bem-humorado e provocativo.

Reconhecido pelas qualidades de cientista social – estudou Direito, Economia e Antropologia –, o primeiro livro publicado pelo autor foi um romance, Póvoa Mundo, lançado pela lendária editora José Olympio, em 1981. De lá até hoje são 18 obras que, vistas em perspectiva, atestam a envergadura, a profundidade e a independência do escritor. Invariavelmente, os títulos mergulham na história do país, muito especialmente do Nordeste e de Alagoas. Não se pode estudar a formação de nosso estado sem conhecer as teses de Dirceu Lindoso. Simples assim.

As ideias do pesquisador estão em livros como A Diferença Selvagem (1983), A Utopia Armada (1983), Liberdade e Socialismo (1986), Formação de Alagoas Boreal (2000), As Invenções da Escrita (2006) e A Razão Quilombola (2011). O último título lançado foi Nos Labirintos da Imprensa, uma coletânea de artigos publicados em jornais, organizada pela editora da Universidade Federal de Alagoas.

Dessa vasta produção, é praticamente impossível apontar um trabalho de maior destaque. De todo modo, a julgar pelas inumeráveis citações em textos de estudiosos de diversas correntes teóricas, Formação de Alagoas Boreal é um dos momentos mais fortes de nosso conterrâneo. Nessa obra, Dirceu esmiúça os lances iniciais da colonização e do povoamento do território alagoano a partir da região de Porto Calvo. Aqui, ele declara rejeição ao que chama de historicismo e afirma a convicção de sua abordagem antropológica.

Nesse mesmo livro, na contramão de uma tendência que parece seduzir nomes ilustres da universidade, o antropólogo combate as versões que, para ele, superestimam a importância da presença de holandeses no Brasil colonial. Escreve em seu clássico: “(…) Surge o delírio de alguns, mais preocupados com a projeção de seus desejos que com a probidade histórica, imaginando uma Porto Calvo holandesa que jamais existiu. O que sempre existiu foi a Porto Calvo portuguesa desde as origens”.

Em nosso encontro, o escritor contou histórias pessoais que marcaram sua vida. Assim como Graciliano Ramos, ele também foi preso e perdeu o emprego no serviço público de Alagoas. A encrenca se deu logo após o golpe militar de 1964. Dirceu era visto como “elemento de ideias subversivas”, ou, em outras palavras, era mais um perigoso comunista, segundo a paranoia coletiva fabricada pelos trogloditas que tomaram o poder naqueles tempos. Foram dez meses numa cadeia de Maceió.

Destaco ainda uma virtude – essencial, aliás – que eleva Dirceu a um patamar que poucos colegas no ramo conseguem atingir. Refiro-me ao texto, minucioso, afiado, misturando vozes, num estilo que recorre à experiência pessoal para explicar episódios históricos e elaborar hipóteses. Em seus livros, o tom de várias passagens dá ao ensaio científico ares de literatura de ficção – e vice-versa; sem perder com isso, ressalte-se, o rigor, a precisão e a honestidade intelectual.

Encerro voltando ao começo. Dirceu Lindoso é um patrimônio cultural alagoano. Por isso, o conjunto da obra que escreveu tem que circular, de modo amplo, com edições à altura de sua incontestável relevância. Por fim, agradecemos por nos receber em sua casa, de forma calorosa, com generosidade e paciência. Eis um cara irresistível, um mestre.

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