Literatura
Carlos Moliterno ganha edição de obra completa

Carlos Moliterno ganha edição de obra completa

Seis anos depois da paulistana Semana de Arte Moderna (1922), Maceió viu a coisa pegar fogo no mundo intelectual da província com um acontecimento que deu o que falar – antes mesmo de tudo começar: foi a nossa Semana de Arte Nova, cuja exposição de lançamento ocorreu em 16 de junho de 1928.

O evento teve como palco o Instituto Rosalvo Ribeiro, localizado na então Avenida Presidente Bernardes, que anos depois passaria a se chamar Avenida Moreira Lima, no coração da capital alagoana.

Muitos de nossos poetas, prosadores e pintores estavam preocupados em produzir algo em sintonia com os ventos da renovação estética. “Nos primeiros meses desse ano de 1928, os rapazes da Academia Guimarães Passos começaram a se entusiasmar pelo movimento modernista”, escreveu o poeta Carlos Moliterno (1912-1998), em texto publicado na década de 1960.

Assim como se dera com os rebeldes de São Paulo, a ação dos alagoanos não foi bem recebida por alguns baluartes que imperavam naqueles tempos. Medalhões como Carlos Pontes e Guedes de Miranda repudiaram as ideias difundidas pelos autores que formavam a tropa dos revolucionários na arte.

Essas informações sobre o terremoto intelectual em solo maceioense estão num livro precioso do já citado poeta Carlos Moliterno. O episódio sobre a Semana de Arte Nova é apenas uma parte do tesouro que se encontra nessas páginas: trata-se de Notas sobre Poesia Moderna em Alagoas, ambicioso volume de ensaios que percorre a produção literária por aqui, entre as décadas de 1920 e 1960.

Moliterno, conhecido pelo valioso livro de poemas A Ilha, lançado em 1969, foi um homem de múltiplas frentes: atuou durante muitos anos como jornalista e crítico literário; presidiu a Academia Alagoana de Letras e comandou suplementos literários nos maiores jornais do estado.

No mencionado Notas sobre Poesia…, ele escreve sobre 33 autores e apresenta três ou quatro poemas de cada um dos que, segundo sua abordagem, representam o abrangente panorama da produção nas letras alagoanas.

Entre os nomes da antologia estão Mendonça Junior, Valdemar Cavalcanti, Carlos Paurílio e Wanderley de Gusmão. Em artigos curtos, de no máximo três páginas, cada selecionado recebe a devida contextualização histórica.

O livro de crítica literária de Carlos Moliterno é um dos três títulos que ele publicou durante a vida. Os outros dois são o já citado A Ilha e um volume de poemas chamado Desencontro.

Em breve as três obras ganharão uma nova edição, elaborada pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Nossa meta é reapresentar o escritor com um tratamento editorial inédito, à altura de sua relevância; os três livros vão integrar uma caixa, com projeto gráfico especial, trazendo ilustrações e textos sobre o autor.

Em julho de 2012, um perfil do irrequieto intelectual foi publicado pela revista Graciliano, que montou um amplo painel sobre sua trajetória. Especialistas e escritores falam do importante legado que ele nos deixou e avaliam o alcance de sua produção literária (a edição de número 15 da revista, com as reportagens sobre o autor, pode ser adquirida na sede da Imprensa Oficial).

Fora de circulação há bastante tempo, finalmente o poeta, que foi admirado por gente como Drummond, Lêdo Ivo e Jorge Cooper, terá toda sua obra reunida, ao alcance dos leitores. A edição tem publicação prevista para o começo do segundo semestre deste ano. Até lá, uma brevíssima mostra dos contundentes versos vistos nos sonetos de A Ilha.

De longe avisto a ilha. Meu veleiro
aprumo nos seus rumos revelados.
O mar brame em redor. E a tempestade
ameaça o meu barco imaginário.

Meu barco vence o tempo e vence o medo,
mas rebenta seus mastros, seus velames
e chego às suas praias naufragado.

Compartilhe

Posts Relacionados

Responder

Seu e-mail não vai ser publicado. Required fields are marked *