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A leitura e a morte do livro

A leitura e a morte do livro

1. Argila, papiro e pergaminho. Antes de chegar ao papel, o homem experimentou materiais diversos para a confecção do objeto que um dia passaria a ser chamado de livro.

2. Também já escrevemos sobre suportes de bambu, de ossos, de madeira e de metal. Uma espécie de imperativo existencial pela preservação da memória coletiva (ou alguma coisa por aí).

3. O livro, segundo consenso científico, teria sua origem na antiga Mesopotâmia, pouco mais de cinco mil anos atrás. Cinco milênios. Cinquenta séculos.

4. Cinco mil anos é mais ou menos o tempo que se atribui ao surgimento da escrita. As duas coisas, portanto, o livro e a escrita, seriam contemporâneas.

5. Naquele tempo, o sistema precisava registrar as medidas oficiais elementares: as leis que entrariam em vigor – para punir eventuais delitos da ralé – e a garantia dos privilégios destinados exclusivamente à velha elite local.

6. Na verdade, não se registrava quase nada a memória dos povos – mas essencialmente o conjunto de demandas obrigatórias à chamada manutenção da ordem vigente. Isso é antigo.

7. Ainda assim, consta que houve, desde aqueles dias, o registro de relatos acerca de lendas e os primeiros ensaios do que viria a ser a arte da poesia.

8. Na Idade Média – e por todas as épocas que existiram e existirão – o livro se tornou inimigo de qualquer poder e alvo de incontroláveis fúrias.

9. Temido e odiado ao mesmo tempo, o livro, essa invenção desconcertante, já sumiu na solidão das abadias – para que nenhum leitor pudesse ler suas palavras – e já queimou nas fogueiras acesas pelos donos da vida e da morte.

10. Um livro é capaz de incomodar um sistema de poder, antes mesmo de ser publicado. Por isso as ditaduras barram obras que ainda nem passaram por revisão e muito menos tiveram uma elegante capa sobre suas páginas.

11. De repente, esse troço vai acabar. Nas regiões da vida social que desenvolvem uma relação amplamente festiva com a novidade, o livro meteu o pé na cova – e daí não tem mais retorno.

12. A leitura em outros suportes e novíssimas plataformas. Dizem que é o futuro. Mas, dando uma olhada lá fora, no mundo real, as máquinas não param de imprimir o permanente fluxo de textos que o homem escreve.

13. Nesse ritmo, não surpreenderia que a prática da leitura viesse a ser extinta antes da extinção do livro. É o que se pode deduzir frente ao arsenal da guerra generalizada que elegeu o microtexto como dogma.

14. “Texto longo” é inimigo a ser fuzilado, venha de onde vier, diga o que queira dizer, seja prosa, lorota ou poesia. Com essa filosofia estabelecida como regra universal, aí sim, o livro deve mesmo andar correndo grave perigo.

15. Ninguém precisa entrar em desespero diante de uma especulação sobre o futuro de alguma coisa, ainda que seja o livro o objeto de tal especulação. O fim pode até estar próximo, mas, nesse caso, deve demorar um bocado.

16. Até lá, como eu e você, aposto que meio mundo de gente está com um catatau de livros acumulados para ler. E a pilha não para de crescer. Espero que tenhamos tempo de encarar, ao menos, os títulos obrigatórios.

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